
Já há algum tempo que não escrevo nada . Não tenho andado virado para isto, mas recentemente tenho pensado sobre um assunto que até posso considerar sério (se considerar as palermices que normalmente escrevo), e por isso decidi escrever umas linhas sobre isso.
Correndo o risco de vir a ser investigado pela PJ, pela PSP ou até pela ASAE (que diz que já anda também em cima do acontecimento), eu arrisco.
Há uns meses atrás fui convidado por uma amiga para ir assistir, em pleno Domingo à tarde, num hotel em V.N. de Gaia, a uma suposta palestra, que supostamente estava relacionada com a minha área de formação (marketing) e que supostamente iria ser do meu interesse.
Sendo uma pessoa amiga e perante a insistência, resolvi aceitar o convite. A única coisa que fiquei a saber é que deveria comparecer de fato e gravata, para (dizia ela) não me sentir inferiorizado em relação aos supostos empresários e gente importante que iria estar no local…
Logo a partir daqui comecei a achar tudo muito estranho…
Palestra?! Domingo?! Hotel?! Nnnaaaaaaaa!!!!!
Embora já tivesse 99% de certeza do que me iria acontecer nesse Domingo, já me tinha comprometido a ir. Por isso fui.
Não fui de fato e gravata conforme as indicações, mas de calça de ganga e completamente informal, mesmo numa de gozo.
O ponto percentual que ainda poderia ter de dúvida sobre o que se iria passar naquele dia, foi eliminado mal entrei no hotel.
O que pensei naquele momento foi: “o quê que me vão tentar vender?”
Fui então arrastado para a sala de conferências, junto com a manada de “empresários importantes e bem sucedidos” e mais uns tansos como eu (uns a pensar que a vida deles iria mudar ali, e outros a pensar (como eu) “que caralho estou a fazer aqui?!”).
A primeira coisa que fiz depois de me sentar, foi mesmo ver onde era a saída da sala para “bazar” dali mal pudesse (até me podem chamar básico, eu digo mesmo que foi instinto de sobrevivência).
Informaram-nos que iríamos assistir a uma apresentação, dividida em 3 partes. Na primeira parte iria ser projectada uma apresentação do programa (ao qual nos deveríamos associar), na segunda iriam ser feitas entrevistas pessoais aos candidatos (nós os tansos) por um gestor do projecto, e finalmente na terceira parte seria formalizada (com contratos escritos e tudo) a entrada dos candidatos (sangue novo) para o projecto.
Antes da apresentação, que iria ser feita pelo director de marketing da empresa (que segundo a menina que falava ao microfone, era um profissional fantástico e um ser humano incrível), foram passando (para nos entreter e encher o olho) fotos dos convívios, festas, encontros e galas feitas pela empresa, mostrando a felicidade das pessoas envolvidas. Músicas épicas acompanhavam as fotos, exaltando toda a alegria, todo o sucesso, os abraços, as lágrimas de felicidade dos participantes… (nessa altura eu já estava quase a vomitar…).
Olhando à volta pela sala, via gente de pé a dançar, a rir, a abraçarem-se, a olharem com cumplicidade uns para os outros. Que alegria, meu Deus!!!
Como poderia eu não me deixar levar por aquele espírito???!!! DAAAAHHHHHHH!!!! SE CALHAR PORQUE NÃO ESTUPIDO!!!!
Em vez de dançar ou bater palmas fiquei a apreciar todo o cenário, toda a forma de tentar levar as pessoas numa direcção precisa, todos os figurantes (havia o palhaço do grupo que deveria fazer rir toda a gente com piadas supostamente improvisadas, havia o gajo que sabia a solução de todos os problemas da sociedade, havia…sei lá, tanto cromo que só me dava vontade de rir).
Uma coisa é certa, de improviso ali não havia nada. Aquela gente era profissional e estava ali para ganhar dinheiro.
Quando apareceu o suposto director de marketing só me deu vontade de rir. Já tinha visto vendedores de “banha da cobra” com ar mais credível que o senhor, mas espera lá… ele estava de fato e isso deveria fazer toda a diferença….!! Ihhihihihihihi!!!!!
Começou a apresentação. 2 minutos bastaram para perceber que ali não se vendia nada, a não ser a felicidade. Não havia colchões milagrosos de 500 contos à venda, ou férias no Algarve, nada, não havia um produto. Vendia-se a felicidade, vendia-se o finalizar de todos os problemas financeiros.
De uma forma simplista, chamaria isto de mais um “esquema ou jogo da bolha”, mas aquilo era tudo menos simples. A estratégia, a produção, o aparato, tudo estava feito para “caçar” ali as pessoas.
Durante a primeira parte da apresentação começaram a entregar a cada candidato uma pasta com uns impressos para preencher (dados simples diziam eles).
Lógico que os meus impressos ficaram por preencher. Enquanto alguns preenchiam eu estava novamente à procura e a olhar para a saída de emergência.
Foi no final da primeira parte que me levantei, informei as pessoas que não ia preencher absolutamente nada e muito menos assistir a mais nada daquela treta.
Perguntaram-me porquê? Eu só disse que não estava interessado em nada daquilo. “Daquilo, o quê?” (perguntaram eles). “Disto!!!” (disse eu).
A caminho da saída ainda foram feitas algumas tentativas (sem sucesso) de me fazer mudar de ideias. O argumento “isto é tudo legal” não me convenceu…
Eu decidi pôr um ponto final na conversa ao dizer que a mim sempre me tinham incutido o espírito de trabalhar para ganhar dinheiro, e não enganar os outros. A resposta foi que então ia ter de trabalhar muito (que brutalidade… parece que lhes caiu a máscara naquele momento). Ao que eu respondi “pois então que seja” e fui embora.
Entretanto tenho falado com várias pessoas sobre este fenómeno da “bolha”. Pelos vistos há gente que investe mais de 10.000 euros e ao fim de algum tempo começa a ter um retorno tão elevado que até deixam de trabalhar. Se é verdade ou não, desconheço. Acredito é que haja muita gente a perder. Senão vejam, para uma pessoa ganhar são precisas não sei quantas a investir, ou perder no imediato. Podem considerar isto um investimento, mas quem é que garante a estes tansos que um dia o dinheiro não desaparece todo, ou que não são descobertos pelas autoridades.
O que mais me choca é que as pessoas que “caem” no esquema, que investem as suas poupanças ou por vezes até fazem empréstimos bancários, depois vivem na ânsia de ter o devido retorno do investimento, e isso só conseguem ao eles próprios “caçarem outras presas”.
É ai que começam a abordar colegas de trabalho, amigos e familiares.
É aí que estas pessoas perdem a dignidade.
Cair toda a gente cai, errar toda a gente erra. Mas aproveitarem-se de pessoas conhecidas para “salvar a pele”, NÃO ESTÁ CORRECTO.
É um esquema que se alimenta de sangue novo, da ganância de dinheiro fácil e da ânsia da resolução de todos os problemas financeiros.
Chamem-me antiquado. Podem dizer até que estou errado.
Eu cá para mim, prefiro continuar a trabalhar e ter a minha dignidade.
Não preciso de conduzir um Mercedes pago com uma mala de notas de 500 euros, não preciso de usar fato e gravata e ser um “empresário da treta”, não preciso de dinheiro fácil, não preciso de incutir a mesma ganância nos meus amigos ou conhecidos.
O que ganho com os meus amigos é uma coisa simples chamada amizade.
Pelos bons amigos que tenho, sou um homem rico.
Pensem nisto.
05 agosto 2009
Os amigos da bolha...
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1 comentários:
Já estive numa dessas apresentações e não a conseguiria descrever melhor do k tu. Além de revoltada c o facto de ter assistido àquela merda ainda lhe juntei o repúdio das pessoas k nos tentam convencer, sempre c um sorriso, c argumentos decorados e mecanizados.
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