09 setembro 2010

Caça aos gambuzinos…


(Nota: Para os que se assustarem com o tamanho do texto, digo já que a primeira parte é só palha mas que serve para perceber a segunda, por isso acho que devem ler. Se não quiserem ler, não leiam.)

Quando era mais “chavalo” e passava grandes temporadas nas terras quentes do Douro (ou frias se for no Inverno), e nas alturas em que a casa dos meus avós se enchia de gente (férias ou vindimas, normalmente), volta e meia lá íamos nós (os mais graúdos e geralmente uma vitima de idade inferior) à caça dos gambuzinos…
Para nós aquilo era uma diversão (enganar alguém de mais tenra idade), embora conseguíssemos perceber já alguma crueldade na brincadeira (coisa que não nos impediu de repetir a brincadeira algumas vezes).
Basicamente o que fazíamos era levar a “vitima”, a meio da noite, para um local bem deserto, sem iluminação, e o mais assustador possível.
A única coisa que a “vitima” tinha de fazer era levar um saco de serapilheira grande e esperar a aproximação dos gambuzinos para os apanhar. É certo que com a descrição que cada pessoa fazia dos gambuzinos, a jovem vitima ficava completamente na duvida se os ditos “seres” teriam asas, focinho de porco, longos membros posteriores ou até escamas (cada um de nós acrescentava algo ao bicho).
Já nós, os cruéis abusadores só tínhamos de pegar em paus, pedras e tudo aquilo que pudesse ser usado como arma, e ir para o monte, traçando um perímetro à volta da vitima com o seu saco de serapilheira, e afugentar os gambuzinos na direcção do saco, para aí serem apanhados habilidosamente.
Esta, claro, era a versão que era dada à pessoa que ficava com o saco…
Na realidade, mal desaparecíamos na escuridão, largávamos as nossas poderosas armas de caça, e íamos imediatamente para casa, comer, beber ou jogar cartas se fosse preciso esperar muito pela chagada da vítima em pânico depois de aguardar pacientemente (e em vão…) pelos gambuzinos no escuro, no silêncio, no meio do nada.
Cruel, não é?

Agora eu pergunto-vos uma coisa: “quanto tempo passamos nós agora (em adultos) à procura de gambuzinos?”
Se calhar é só impressão minha ou se calhar isto só me acontece a mim, mas parece-me a mim que crescemos e a partir de um certo momento começamos a procurar freneticamente algo que não existe, nos sítios mais absurdos, sozinhos, sem ver ou perceber o que está à nossa volta, e na ânsia de conseguir encontrar e agarrar sabe-se lá o quê…!!!
Até há uns tempos atrás (não tão distantes assim) e durante muito tempo, sentia-me exactamente assim… sozinho, no escuro, sem ver nada, sem ouvir nada, à espera de encontrar algo desconhecido, e cada vez mais perdido no meio do nada.
Quanto mais perdido ficava, mais as pessoas à minha volta se afastavam seguindo com as suas vidas (exactamente como no jogo cruel da caça ao gambuzino). Mesmo percebendo isso, o medo de sair do local onde ficamos a aguardar pelo desconhecido torna-se paralisante e não nos conseguimos libertar ou mover. Vemos tudo o que se passa, mas o pânico de sair do escuro e procurar a vida é enorme.
(agora é a parte em que vocês dizem: “Este gajo anda ou andou a fumar umas cenas!! Só pode!!!).
Pá, não!!! Não sei que raio é isto, e não sei o que mudou agora, mas parece que do local onde estou, consigo ver alguma luz e consigo finalmente andar nessa direcção, na direcção onde tudo acontece e onde há vida normal. É caso para dizer como a KT Tunstall “suddenly I see”!!!!
Não deixo de reconhecer aqui que os finais de tarde de sexta, na Avenida da Republica, me fizeram perceber muita coisa. Muitas vezes, o silêncio que “ouvi” naquela salinha 35 do 3º andar do edifício do Montepio, foi melhor do que qualquer palavra.

O melhor disto tudo é que quando se volta para onde está toda a gente, vemos os que ficaram a aguardar por nós e nos dão um abraço de alegria. Ao mesmo tempo ficamos a saber quem é que simplesmente virou costas a “bazou” sem querer saber de mais nada.

E assim é a vida!!!

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